Por que Sofremos? Eclesiastes e Kierkegaard Respondem
- 31/07/2025
- Palavra e Razão
O Eco de uma Pergunta Universal
Há perguntas que, por sua natureza, parecem ecoar através do tempo, tocando cada coração humano de forma única. A pergunta “por que sofremos?” é, sem dúvida, uma delas. Não se trata de um problema meramente filosófico ou teológico, mas da dor palpável que sentimos em nossas próprias vidas e nas de quem amamos.
Nesta busca por respostas, encontramos duas vozes improváveis, separadas por milênios, mas unidas por uma percepção aguda da condição humana. De um lado, o Pregador de Eclesiastes, uma figura bíblica antiga que, com uma honestidade brutal, olha para a vida “debaixo do sol” e declara tudo como “vaidade e aflição de espírito.” Sua voz ressoa com um ceticismo que nos desafia a questionar a solidez de nossas próprias buscas por felicidade e sucesso.
Do outro lado, temos Søren Kierkegaard, o filósofo dinamarquês do século XIX, considerado o pai do existencialismo. Kierkegaard não se detém apenas na superficialidade do sofrimento, mas mergulha na sua dimensão mais profunda: a angústia e o desespero. Para ele, essas não são apenas emoções negativas, mas sinais de que algo essencial em nossa existência está desequilibrado.
Em uma primeira leitura, Eclesiastes parece nos empurrar para o niilismo, enquanto Kierkegaard nos assusta com a angústia da escolha. Contudo, ao escutarmos com atenção, percebemos que essas vozes estão em um diálogo fascinante. Ambas nos convidam a ir além do visível e do terreno, usando o sofrimento não como um ponto final, mas como o ponto de partida para uma busca mais profunda por sentido. Junte-se a nós nesta jornada para descobrir o que esses dois grandes pensadores têm a nos ensinar sobre como a dor pode, paradoxalmente, nos guiar em direção à esperança autêntica.

A Perspectiva de Eclesiastes: O Sofrimento da Vaidade
O livro de Eclesiastes começa com uma frase que serve de bússola para toda a sua reflexão: “Vaidade de vaidades, diz o pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (Eclesiastes 1:2). A palavra hebraica “hevel,” traduzida como vaidade, carrega o sentido de algo passageiro, fútil, como “névoa” ou “vapor.” O Pregador, possivelmente o Rei Salomão, usa a sua vasta experiência – riqueza, sabedoria, prazeres – para concluir que nenhuma dessas coisas traz sentido duradouro.
Ele observa os ciclos da natureza: o sol nasce e se põe, os rios correm para o mar e retornam, uma geração vai e outra vem, mas a terra permanece a mesma. “Nada há de novo debaixo do sol,” ele afirma, expondo a repetição monótona da vida. E o que isso tem a ver com o sofrimento? Para o Pregador, a dor não vem apenas de eventos trágicos, mas da própria busca por significado em algo que é, por natureza, efêmero. O sofrimento é inerente à condição humana quando se vive sem uma perspectiva eterna.
Ele chega a uma conclusão surpreendente em Eclesiastes 1:18: “Porque na muita sabedoria há muito enfado; e quem aumenta em conhecimento aumenta também em sofrimento.” A dor é um subproduto inevitável de uma consciência aguçada que percebe a futilidade de tudo. Viver “debaixo do sol” é viver com a certeza de que todo o nosso esforço, riqueza e conhecimento são vulneráveis ao tempo e, no final, serão esquecidos.
A dor em Eclesiastes é existencial; não é apenas a de um evento, mas a de uma condição. O Pregador não nega os prazeres da vida (comer, beber, aproveitar o trabalho), mas ele os enxerga como dádivas momentâneas de Deus, e não como fontes de sentido em si mesmas. O sofrimento, então, é a vaidade que nos confronta, nos mostrando que nossa esperança não deve estar nas coisas do mundo, mas na mão do Criador.
A Angústia de Kierkegaard: O Desespero como Convite à Fé
Milênios depois, Søren Kierkegaard, com um espírito igualmente introspectivo, investiga o sofrimento a partir de outra ótica: a da angústia e do desespero. Para Kierkegaard, o ser humano é uma “síntese de finito e infinito, de temporal e eterno.” O problema surge quando essa síntese se rompe. É aqui que entra o conceito de “angústia.”
Diferente do medo, que tem um objeto (medo de aranhas, por exemplo), a angústia, para Kierkegaard, é o medo do nada, a vertigem que sentimos diante da liberdade e das infinitas possibilidades. É a percepção de que somos livres para escolher, mas que essa liberdade nos coloca em um estado de incerteza profunda. A angústia, portanto, não é uma fraqueza a ser evitada, mas um sinal de que somos seres espirituais, com uma dimensão eterna.
O “desespero,” por sua vez, é a “doença mortal” que não mata o corpo, mas o espírito. Kierkegaard argumenta que o desespero é a tentativa do eu de não ser quem ele realmente é – seja por querer ser outra pessoa (desespero de ser-se), seja por não querer ser quem se é (desespero de não se querer ser). Em O Desespero Humano, ele afirma que “um homem está em desespero quando, em vez de se tornar ele mesmo, prefere um outro ou muitos outros, e assim se perde a si mesmo.”
Para Kierkegaard, a única cura para o desespero é o que ele chama de “o salto de fé.” Não se trata de uma decisão puramente racional, mas de uma entrega paradoxal a Deus, um momento em que a razão se esgota e o indivíduo abraça o Absoluto. Nesse salto, o sofrimento e a angústia são reconhecidos como guias que nos levam à única esperança verdadeira. O desespero, que parecia uma prisão, torna-se a porta de entrada para a fé.

Diálogos Improváveis: O Encontro entre o Antigo e o Moderno
O que o Pregador de Eclesiastes e o filósofo Kierkegaard podem nos dizer juntos? A “vaidade” do primeiro e o “desespero” do segundo são, na verdade, duas faces da mesma moeda. Ambos diagnosticam o mesmo problema: a condição humana de procurar significado em fontes finitas e, por isso, estar condenado ao sofrimento.
Eclesiastes nos mostra a futilidade externa da vida “debaixo do sol,” enquanto Kierkegaard nos revela a angústia interna que essa futilidade provoca. A dor de Eclesiastes, que vem da repetição e da inevitabilidade da morte, é a mesma dor que leva Kierkegaard a descrever o desespero. Ambos percebem que o ser humano é muito mais do que a soma de suas partes materiais e que, sem uma conexão com o eterno, a vida perde o seu brilho.
Ambos os pensadores apontam para a necessidade de um relacionamento com Deus. O Pregador, mesmo em seu ceticismo, conclui que “temer a Deus e guardar os seus mandamentos” é o “principal dever de todo o homem” (Eclesiastes 12:13). Da mesma forma, Kierkegaard vê a fé como a única solução para o desespero. O sofrimento, nesse contexto, não é um erro do sistema, mas um alarme que nos avisa que estamos buscando sentido no lugar errado.
O que surge desse diálogo é uma visão robusta e humanista do sofrimento. A dor é um convite — um convite para pararmos de confiar em nós mesmos e nas coisas do mundo, e nos voltarmos para o único que pode oferecer sentido eterno. É uma jornada que começa com a angústia da vaidade e culmina na esperança do salto de fé.
Do Sofrimento à Esperança Autêntica
Em um mundo que muitas vezes nos pressiona a suprimir a dor com distrações e prazeres superficiais, Eclesiastes e Kierkegaard nos lembram da importância de encará-la de frente. O sofrimento, seja ele a vaidade da vida ou a angústia da liberdade, é uma parte inegável da experiência humana.
Mas ao invés de nos afundar no desespero, esse reconhecimento nos liberta. Ele nos mostra que a vida não é apenas sobre o que acontece “debaixo do sol,” mas sobre a nossa relação com o que está “acima.” O sofrimento é, em essência, o que nos torna mais humanos, pois nos força a confrontar nossas limitações e a buscar uma realidade que as transcenda.
Que a sua própria dor não seja um fim, mas um começo. Que ela se torne a bússola que aponta para o verdadeiro sentido, aquele que só é encontrado em Deus.
Aprofunde-se: Se este tema ressoou com você, confira nosso post sobre O que a Paciência de Jó Ensina…, onde exploramos outra perspectiva bíblica sobre a dor e a esperança.