De Aristóteles ao Instagram: Por que temos seguidores, mas não temos amigos?
- 08/01/2026
- Palavra e Razão
Descanso na sociedade cansaço
"Em todo tempo ama o amigo e para a hora da angústia nasce o irmão."
Provérbios 17:17
"Sem amigos, ninguém escolheria viver, mesmo que tivesse todos os outros bens." — Aristóteles
Ética a Nicômaco
Nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, nunca nos sentimos tão sós. Temos milhares de “amigos” nas redes sociais, nossos stories são visualizados por centenas de pessoas, mas quando a crise bate à porta numa terça-feira à noite, a lista de quem podemos ligar cabe nos dedos de uma única mão — e às vezes, sobram dedos.
O filósofo grego Aristóteles, muito antes do botão de “curtir” existir, categorizou a amizade em três níveis: a amizade por utilidade (baseada no que o outro pode me dar), a amizade por prazer (baseada na diversão momentânea) e a amizade pela virtude (baseada no caráter e no bem mútuo).

Se olharmos para nossas redes sociais hoje, a maioria das nossas conexões flutua entre a utilidade (networking) e o prazer (entretenimento). São relações frágeis. Se a utilidade acaba ou a diversão cessa, a “amizade” evapora. O mundo digital nos vendeu um simulacro de conexão: a validação pública substituiu a intimidade privada.
O Cristianismo eleva o conceito de Aristóteles a um patamar espiritual chamado Koinonia (comunhão). No Novo Testamento, a amizade não é apenas sobre afinidade ou virtude, mas sobre vulnerabilidade e sacrifício. Jesus diz: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos”.
A grande tragédia moderna é que trocamos a profundidade da Koinonia pela amplitude da audiência. O algoritmo nos treina para mostrar apenas o nosso “palco” — as vitórias, as fotos editadas, o sorriso perfeito. Mas a amizade verdadeira só acontece nos “bastidores” — no choro, na confissão de fraqueza, na cara lavada. Não há amizade sem verdade, e a internet é o reino dos filtros.
Para curar a solidão conectada, precisamos de menos Wi-Fi e mais “olho no olho”. Precisamos recuperar a coragem de sermos conhecidos de verdade, não apenas admirados à distância.
Aplicação Prática
Faça uma auditoria relacional nesta semana:
- O Teste da Madrugada: Pergunte-se: "Quem são as 3 pessoas para quem eu poderia ligar às 3 da manhã se meu mundo desabasse?".
- O Cultivo Intencional: Escolha uma dessas pessoas (ou alguém que você quer trazer para esse círculo) e marque um café ou faça uma ligação de voz (sem texto!). Fale sobre algo real, uma dificuldade ou um sonho, e não apenas sobre notícias ou fofocas. Aprofunde a conversa.