Como a Fé de Abraão Inspira Decisões Difíceis?

Bem-vindo de volta ao Palavra e Razão!

Todos nós, em algum momento, paramos diante de uma encruzilhada. Pode ser uma mudança de carreira que exige largar o certo pelo duvidoso, o fim de um relacionamento que já não faz sentido, ou uma mudança de cidade para um lugar onde não conhecemos ninguém. A vida moderna nos bombardeia com escolhas. E, junto com elas, vem a paralisia. O medo de errar, de se arrepender, de perder o controle.

Nessas horas, gostamos de ter garantias. Queremos um mapa detalhado, com todos os riscos calculados e o destino final assegurado pelo GPS. Mas e quando a vida — ou Deus — pede um passo no escuro?

É aqui que a história de Abraão, narrada no livro de Gênesis, se torna assustadoramente atual. Ele é chamado de “Pai da Fé”, mas muitas vezes esquecemos que sua fé não foi um sentimento quentinho no coração; foi uma série de decisões angustiantes tomadas sem ver o quadro completo.

Hoje, vamos explorar como a jornada de Abraão dialoga com a filosofia de Søren Kierkegaard, um pensador que dedicou sua vida a entender a angústia e a coragem da fé. Juntos, eles têm muito a nos ensinar sobre como navegar as incertezas da vida moderna. Se você está travado diante de uma decisão difícil, este texto é para você.

O Chamado para o Desconhecido

A história começa com uma ordem que desafia qualquer lógica de segurança. Em Gênesis 12:1, Deus diz a Abraão (então Abrão): “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei”.

Note o detalhe crucial: “que eu te mostrarei“. Deus não dá o endereço, nem o tempo de viagem, nem a garantia de sucesso. Ele pede movimento antes da clareza. Para a mentalidade antiga (e para a nossa), isso era loucura. A identidade de um homem estava ligada à sua terra e ao clã de seu pai. Sair dali era tornar-se vulnerável, um estrangeiro sem proteção.

Mas Abraão foi. Ele trocou a segurança do conhecido pela promessa do “quem sabe?”. Ele não tinha o mapa, mas confiava no Guia.

Muitos anos depois, vem o teste final, narrado em Gênesis 22. Deus pede o inimaginável: sacrificar Isaque, o filho da promessa. Aquele por quem Abraão esperou a vida inteira. Se o primeiro chamado pedia para largar o passado, este pedia para matar o futuro. É uma passagem difícil, que choca nossa sensibilidade moral. Mas é exatamente nesse choque que a filosofia nos ajuda a enxergar além.

Kierkegaard e o "Salto de Fé"

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813–1855) ficou fascinado — e aterrorizado — por essa história. Em seu livro Temor e Tremor, ele usa o pseudônimo Johannes de Silentio para tentar entender o que se passava na cabeça de Abraão enquanto subia o monte Moriá.

Kierkegaard diz que, do ponto de vista ético e racional, Abraão seria um assassino. A razão diz: “Proteja seu filho”. A ética diz: “Não matarás”. Mas Abraão faz algo que Kierkegaard chama de “suspensão teleológica do ético”. Ele suspende as regras universais da moral humana em nome de um propósito (telos) maior: sua relação absoluta com Deus.

Para Kierkegaard, Abraão é o “Cavaleiro da Fé”. Diferente do herói trágico que se sacrifica por uma causa que todos entendem (como morrer pela pátria), Abraão caminha sozinho na incompreensão. Ele dá um salto de fé.

O “salto” não é uma aposta cega ou irracionalidade pura. É a coragem de confiar que, mesmo quando a matemática da vida não fecha (sacrificar o filho da promessa = fim da promessa?), Deus ainda é bom e fiel. Kierkegaard observa que Abraão acreditava no absurdo: ele cria que Deus pediria a vida de Isaque e, ao mesmo tempo, lhe devolveria Isaque.

A Angústia da Liberdade

Se Kierkegaard foca na fé, o existencialista Jean-Paul Sartre nos lembra do outro lado da moeda: o peso da escolha. Sartre dizia que estamos “condenados a ser livres”. Sem um Deus para dar o roteiro (na visão ateísta dele), cada escolha é um abismo de responsabilidade.

Às vezes, nos sentimos assim. Queremos que alguém escolha por nós para não carregarmos a culpa do erro. Abraão, contudo, nos mostra um caminho diferente. Ele não escolhe com base na angústia do vazio, mas na confiança de uma Voz. A fé não elimina a angústia da decisão (Kierkegaard chamava isso de “temor e tremor”), mas dá a ela um direção.

Decidindo no Mundo Real: Lições Práticas

Como isso ajuda você, que precisa decidir se muda de emprego, se casa ou se termina, ou se investe naquele sonho antigo? Aqui estão três princípios práticos unindo a Palavra e a Razão:

1. Dê o primeiro passo sem ver a escada inteira

Abraão saiu sem saber para onde ia (Hebreus 11:8). Na vida moderna, muitas vezes sofremos de “paralisia por análise”. Queremos ter certeza absoluta antes de agir. A fé de Abraão nos ensina que a clareza muitas vezes vem durante o movimento, não antes dele.

  • Dica Prática: Não tente resolver os próximos 10 anos. Pergunte-se: “Qual é o único próximo passo que eu preciso dar hoje?”. Pode ser enviar um currículo, ter uma conversa difícil ou apenas orar.

2. Abrace a contradição

Kierkegaard nos mostrou que a fé consegue lidar com paradoxos. Às vezes, a decisão certa parece “errada” para a lógica do mundo (ex.: perdoar quem não merece, doar quando se tem pouco, descansar quando há muito trabalho).

  • Reflexão: Se sua decisão parece absurda para a lógica de “ganhar vantagem”, mas traz paz profunda ao seu espírito e alinha-se aos princípios de amor e verdade, talvez seja o seu “salto de fé”.

3. Confie na provisão, não na previsão

Em Gênesis 22, quando Isaque pergunta “onde está o cordeiro?”, Abraão responde: “Deus proverá” (Jeová Jireh). Ele não sabia como Deus faria, mas sabia quem Deus era.

  • Aplicação: A ansiedade vem de tentar controlar o futuro (previsão). A paz vem de fazer a sua parte e confiar o resultado a Deus (provisão). Você é responsável pela obediência; Deus é responsável pelas consequências.

Qual é o seu Moriá?

Abraão não se tornou o “Pai da Fé” porque era perfeito ou porque sabia tudo. Ele ganhou esse título porque, diante do silêncio e da incerteza, escolheu confiar na bondade daquele que o chamou.

Talvez hoje você esteja diante do seu próprio monte Moriá. A subida é íngreme, a decisão é pesada e a lógica humana grita para você voltar atrás. Mas lembre-se: a fé não é a ausência de dúvidas; é a decisão de continuar caminhando apesar delas.

Kierkegaard dizia que a fé é a maior paixão de um ser humano. Ela exige tudo de nós, mas nos devolve a nós mesmos transformados.

E você? Qual decisão difícil está tirando seu sono? Que tal dar um passo de fé hoje, mesmo que pequeno?

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