A Verdadeira Liberdade: Entre a Redenção em Cristo e a Autonomia Existencial de Sartre
- 11/07/2025
- Palavra e Razão
A liberdade é um dos anseios mais profundos da alma humana. Desde a infância, lutamos para quebrar as amarras, sejam elas físicas, sociais ou emocionais. Queremos ter o direito de escolher, de ir e vir, de ser quem realmente somos. Mas o que, de fato, significa ser livre? É a ausência total de limites, a capacidade irrestrita de fazer o que se deseja? Ou há uma dimensão mais profunda, talvez um paradoxo, onde a verdadeira liberdade se encontra justamente em algum tipo de entrega ou responsabilidade?
Lembro-me de um período da minha vida em que eu acreditava que ser livre era não ter compromissos, não me prender a nada nem a ninguém. Evitava responsabilidades, fugia de qualquer relação que exigisse um investimento emocional profundo. Eu pensava que estava sendo “livre”, mas no fundo, vivia em uma prisão de isolamento, medo e superficialidade. Minhas escolhas, na verdade, estavam me aprisionando, não me libertando. Foi preciso um choque de realidade para perceber que a liberdade que eu buscava era uma ilusão, e que a verdadeira liberdade, paradoxalmente, talvez estivesse em me conectar, em me entregar a algo maior.
Neste artigo, vamos mergulhar em duas das mais potentes e, à primeira vista, contrastantes visões sobre a liberdade: a do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre e a da fé cristã, fundamentada na Bíblia. Onde elas se encontram? Onde divergem? E, mais importante, o que elas nos ensinam sobre a nossa própria busca pela verdadeira liberdade?

A Liberdade Existencial de Jean-Paul Sartre: O Peso da Escolha
Jean-Paul Sartre, um dos expoentes do existencialismo, lançou uma bomba filosófica no século XX com a afirmação de que “a existência precede a essência”. Isso significa, em termos simples, que não nascemos com um propósito ou uma natureza pré-determinada por Deus ou por qualquer outra entidade. Somos primeiramente seres que existem, e só depois, através de nossas escolhas e ações, construímos nossa própria essência. Para Sartre, não há um “manual de instruções” para o ser humano, pois não há um Criador que o tenha concebido com um projeto específico.
"Estamos Condenados a Ser Livres": O Ponto de Partida
Essa premissa sartriana leva a uma conclusão radical: estamos condenados a ser livres. E essa “condenação” não é uma bênção leve, mas um fardo pesado. Se não há Deus para nos dar um propósito, se não há valores morais absolutos que nos guiem, então somos inteiramente responsáveis por cada escolha que fazemos. Não podemos culpar a genética, a criação, as circunstâncias ou até mesmo a natureza humana. Somos a soma de nossas escolhas, e cada decisão define não apenas quem somos, mas também, de alguma forma, o que significa ser humano.
Essa liberdade radical, contudo, vem acompanhada de três sentimentos inerentes à condição humana: a angústia, o desamparo e o desespero. A angústia surge da consciência da total responsabilidade sobre nossas escolhas. Ao optar por algo, estamos não apenas escolhendo por nós mesmos, mas, em certo sentido, escolhendo o que deve ser para toda a humanidade. Se escolho ser honesto, estou, em meu ato, dizendo que a honestidade é um valor universal. O desamparo vem da percepção de que não há um Deus ou uma força superior que valide nossas escolhas ou nos absolva de suas consequências. Estamos sozinhos. E o desespero brota da impossibilidade de controlar o mundo ou de garantir que nossas ações terão o resultado desejado. Não podemos contar com nada além da nossa própria ação.
Para Sartre, a liberdade é, portanto, uma responsabilidade avassaladora, que nos impõe o peso de criar a nós mesmos a cada instante. Não há desculpas. A má-fé, para ele, é a tentativa de fugir dessa responsabilidade, fingindo que não somos livres ou que somos determinados por algo externo a nós. Eu já vivi isso… em momentos de grandes decisões, como escolher uma carreira ou mudar de cidade, senti esse peso esmagador. Não havia um caminho claro, nenhuma voz me dizendo “vá por aqui”. Era apenas eu e o abismo da minha própria escolha, com a consciência de que o resultado, bom ou ruim, seria unicamente meu.


A Liberdade na Perspectiva Bíblica: A Redenção em Cristo
Contrastando com a visão existencialista, a fé cristã apresenta a liberdade sob uma ótica completamente diferente, não como um fardo derivado da ausência de Deus, mas como um dom da presença e da graça divina. A liberdade, aqui, não é primordialmente sobre a autonomia radical de fazer o que se quer, mas sobre a libertação de uma condição de cativeiro para viver em plenitude e propósito.
Não Mais Escravos, Mas Filhos: João 8:36 e Gálatas 5:1
A Bíblia nos mostra que a humanidade, desde a Queda, vive em um estado de escravidão. Não uma escravidão física, necessariamente, mas uma escravidão espiritual ao pecado, à morte e às suas consequências. É nesse contexto que Jesus faz uma afirmação poderosa em João 8:36: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” Essa liberdade não é a de fazer o mal sem consequências, mas a de ser livre do mal, do pecado, da culpa e da condenação. É a liberdade para ser quem Deus nos criou para ser.
Paulo ecoa essa verdade em Gálatas 5:1: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes nela e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão.” Aqui, Paulo se refere à libertação do jugo da Lei e do legalismo, que, em vez de libertar, se tornava um fardo de regras e rituais que ninguém conseguia cumprir perfeitamente. A liberdade em Cristo é a libertação para viver pelo Espírito, pela graça, e não por méritos ou obras. É uma liberdade que nos capacita a amar a Deus e ao próximo, a viver em justiça e paz, não por obrigação, mas por uma nova natureza.
A liberdade cristã não é, portanto, libertinagem. Não é a ausência de limites ou a licença para fazer tudo o que se deseja. Pelo contrário, é a capacidade de não pecar, de não ser escravo de paixões e vícios, de não estar preso ao medo da morte. É a liberdade para viver em retidão, para servir a um propósito divino e para ter um relacionamento restaurado com o Criador. A parábola do Filho Pródigo (Lucas 15:11-32) ilustra isso vividamente. O filho mais novo busca a liberdade “autônoma” ao pedir sua herança e partir. No entanto, sua “liberdade” o leva à miséria e à escravidão, onde ele deseja comer a comida dos porcos. Somente ao retornar ao pai, ao se submeter novamente à autoridade amorosa, ele encontra a verdadeira liberdade, a honra e a celebração. Sua liberdade é restaurada na dependência do pai, não na independência dele.
O Diálogo Improvável: Onde o Caminho se Encontra (e Onde Diverge)
Colocar Sartre e a Bíblia lado a lado para discutir a liberdade pode parecer um exercício de opostos irreconciliáveis. No entanto, há pontos de convergência surpreendentes e divergências fundamentais que nos ajudam a refinar nossa própria compreensão.
Convergências: A Seriedade da Escolha e a Autenticidade
Tanto Sartre quanto a fé cristã atribuem uma seriedade imensa às nossas escolhas. Para Sartre, cada escolha é um ato de autodefinição que carrega o peso da criação de valores. Não há escapatória: somos o que escolhemos ser. Para o cristianismo, embora a graça seja central, a escolha de seguir a Cristo e de viver uma vida de fé é um ato de profunda responsabilidade e compromisso que molda nosso destino eterno. Ambas as visões rejeitam a complacência e a passividade, exigindo do indivíduo uma postura ativa diante da existência.
Ambos também valorizam a autenticidade. Sartre condena a “má-fé”, a tentativa de se esconder da própria liberdade e responsabilidade, vivendo de acordo com papéis impostos ou fugindo da verdade sobre si mesmo. A Bíblia, por sua vez, exorta à integridade e à sinceridade de coração, condenando a hipocrisia e a superficialidade religiosa. Viver uma fé autêntica significa viver em conformidade com a verdade do Evangelho, não em aparência, mas em essência. Ambos apontam para uma condição humana que, de alguma forma, precisa de libertação: para Sartre, da autoilusão e do fardo da não-escolha; para a Bíblia, da escravidão do pecado e da morte.
Divergências Fundamentais: O Fundamento da Liberdade
As diferenças, no entanto, são profundas e definem a natureza da liberdade em cada perspectiva. Para Sartre, a liberdade é uma condição inalienável do ser humano, surgindo do “nada”, sem um fundamento transcendente. Isso gera angústia, pois somos livres sem um guia ou um propósito inerente. A liberdade sartriana é uma liberdade para escolher, mas essa escolha é feita em um vácuo de valores objetivos, sendo o indivíduo o único criador de seu próprio significado.
A liberdade cristã, por outro lado, é uma liberdade para algo, fundamentada no amor e na graça de Deus. Não é uma liberdade que surge do nada, mas que é concedida por um Criador que nos ama e nos liberta para um propósito específico: viver em comunhão com Ele e com o próximo. O fundamento da liberdade não é a ausência de sentido, mas a plenitude de sentido encontrada em Cristo. Essa liberdade não gera angústia no sentido existencialista, mas gratidão e responsabilidade moral.
A questão do “peso” é outra divergência crucial. Para Sartre, a liberdade é um fardo pesado, uma condenação. A responsabilidade total por nossas escolhas, sem um ponto de apoio externo, pode ser esmagadora. Para o cristão, a liberdade em Cristo é libertadora do fardo do pecado, da culpa e da busca incessante por autojustificação. Embora a vida cristã exija responsabilidade e escolhas difíceis, o fardo é aliviado pela graça, pelo perdão e pela convicção de que não estamos sozinhos na jornada. A liberdade cristã é leve, ainda que séria.
Qual Liberdade Escolher? Navegando no Mar da Existência
Diante dessas duas visões potentes, somos convidados a refletir sobre a nossa própria experiência de liberdade. Qual delas ressoa mais profundamente em você? Será que a verdadeira liberdade não reside em uma síntese, em uma navegação consciente que reconhece a seriedade das nossas escolhas sem, contudo, sucumbir à angústia de um universo sem sentido?
A filosofia de Sartre nos força a encarar nossa responsabilidade inegável. Não podemos nos eximir das consequências de nossas ações. A “má-fé” – o autoengano, a tentativa de culpar as circunstâncias ou a natureza – é uma fuga que nos impede de viver autenticamente. Nesse sentido, Sartre nos presta um serviço ao nos despertar para a radicalidade de nossa capacidade de escolha.
Porém, a perspectiva cristã oferece um fundamento e um propósito que transcendem a angústia existencial. Ela nos convida a entender que, embora sejamos responsáveis, não estamos sozinhos, e que a libertação mais profunda vem da entrega a um Libertador que nos capacita a viver uma vida que realmente importa. A liberdade em Cristo não anula nossa capacidade de escolha, mas a qualifica, direcionando-a para o que é bom, justo e eterno.
Percebi que a verdadeira liberdade não era fugir de compromissos ou responsabilidades, como eu pensava na minha juventude, mas sim a liberdade de escolher me comprometer com o que era significativo e bom. Abracei a responsabilidade das minhas escolhas, sim, mas encontrei uma leveza imensa ao perceber que essa responsabilidade não precisava ser um fardo solitário. A fé me deu um propósito, um “para quê” para minhas escolhas, e me libertou da angústia do vazio existencial que antes me paralisava. Foi quando pude, de fato, experimentar a alegria de ser livre para amar, para servir e para viver com significado.
Conclusão: A Libertação que Transforma
A liberdade é, sem dúvida, um dos temas mais complexos e fascinantes da existência humana. Seja a “condenação” de Sartre à total responsabilidade ou a “redenção” em Cristo que nos liberta do pecado, ambas as visões nos desafiam a viver de forma mais autêntica e consciente.
Talvez a verdadeira liberdade não seja a ausência de limites, mas sim a capacidade de viver em alinhamento com a verdade – seja a verdade da sua própria existência forjada por suas escolhas ou a verdade revelada que nos aponta para um caminho de graça e propósito. É a liberdade de não ser escravo do medo, da culpa, das expectativas alheias, ou até mesmo da sua própria “má-fé”. É a liberdade de ser verdadeiramente você, diante de Deus e de si mesmo.
Onde você se sente verdadeiramente livre? O que te aprisiona hoje? Você deposita o peso de suas escolhas apenas sobre si mesmo, ou encontra um apoio, um propósito maior que te sustente? Refletir sobre essas questões é o primeiro passo para uma vida mais autêntica e plena.
Deixe sua reflexão nos comentários abaixo. Sua jornada é importante, e queremos caminhar juntos nessa busca pela verdadeira liberdade. E se você gostou dessa reflexão, confira também nosso post sobre “O Perdão: Entre a Graça Divina e a Ética do Esquecimento”, onde discutimos outra forma poderosa de libertação.