A Santidade do “Não Fazer”: O Shabbat na Sociedade do Cansaço

Descanso na sociedade cansaço

"Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhum trabalho..."

"A sociedade do cansaço é uma sociedade do auto-exploração. O sujeito de desempenho explora a si mesmo até se consumir."

Você já sentiu uma culpa estranha por estar sentado sem fazer nada? No mundo moderno, o descanso tornou-se quase um pecado capital. Fomos programados para acreditar que o valor de um ser humano é medido pela sua produtividade. O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han diagnostica nosso tempo com precisão cirúrgica: vivemos na “Sociedade do Cansaço”. Não precisamos mais de um feitor com um chicote nos obrigando a trabalhar; nós mesmos nos tornamos os feitores, nos chicoteando com a exigência interna de sermos sempre melhores, mais rápidos e mais eficientes.

Ilustração artística dividida entre engrenagens escuras e luz natural, simbolizando a transição da exaustão para o descanso sagrado na sociedade do cansaço.

Nesse cenário de exaustão glorificada, a antiga prática bíblica do Shabbat (Sábado/Descanso) surge não como uma regra religiosa empoeirada, mas como um ato de resistência radical.

Quando olhamos para a narrativa da criação, vemos que Deus descansou no sétimo dia. A teologia clássica nos lembra de algo fascinante: Deus é onipotente, Ele não se cansa. Então, por que descansar? Ele parou para nos ensinar que a criação não se resume a fazer, mas também a ser e desfrutar. O descanso divino não foi uma pausa para recarregar baterias (como fazemos hoje para voltar a trabalhar na segunda-feira), foi a coroação da obra. O descanso era o objetivo.

O estoico Sêneca também alertava sobre a “ocupação estéril”, a vida gasta em um frenesi de atividades que nos impede de viver de verdade. Mas a fé eleva esse conceito. Enquanto a filosofia nos diz que descansar é sábio para a mente, a Bíblia nos diz que descansar é um ato de confiança.

Parar é declarar ao universo: “Eu não sou Deus”. O mundo continuará girando sem o meu esforço. Meus e-mails não respondidos não farão o sol deixar de nascer. O Shabbat é o antídoto para a arrogância de achar que somos indispensáveis. Na verdadeira pausa, deixamos de ser “máquinas de desempenho” para voltarmos a ser “imagem e semelhança”. Descansar, portanto, é a forma mais profunda de adoração e a única maneira de não perdermos nossa alma na engrenagem do progresso.

Aplicação Prática

Rolar para cima