O Naufrágio no Futuro: Como Viver o Momento Presente e Vencer a Ansiedade

Descanso na sociedade cansaço

"O futuro é algo que cada um alcança à taxa de sessenta minutos por hora, faça o que fizer, seja quem for."

"Ele fez tudo apropriado a seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim este não consegue compreender inteiramente o que Deus fez."

Existe uma doença espiritual moderna que poderíamos chamar de “cronopatia”: a obsessão doentia pela passagem do tempo. Vivemos em um estado perpétuo de adiamento. Acreditamos, inconscientemente, que a “verdadeira vida” começará apenas quando terminarmos o projeto, quando chegarmos ao fim de semana, quando os filhos crescerem ou quando a aposentadoria chegar.

Filosóficamente, isso revela uma tensão fundamental entre duas concepções gregas de tempo: Chronos e Kairos.

Ilustração artística surrealista de um relógio antigo se dissolvendo em natureza, simbolizando a diferença entre o tempo Chronos e a importância de viver o momento presente (Kairos).

O mundo corporativo e a nossa agenda do Google operam no Chronos: o tempo sequencial, quantitativo, o tique-taque implacável que nos devora. É o tempo que “falta”. Mas a Bíblia frequentemente nos convida para o Kairos: o tempo oportuno, o momento carregado de significado, o tempo de Deus.

Quando Salomão escreve em Eclesiastes que Deus colocou a “eternidade no coração do homem”, ele está diagnosticando a causa da nossa angústia. Somos seres desenhados para o Eterno, mas estamos presos no Temporal. É como tentar rodar um software infinito em um hardware finito; a máquina esquenta, trava e sofre. Por isso sentimos que o tempo nunca é suficiente: porque nossa alma anseia por um estado onde o tempo não se esgota.

O grande erro estratégico que cometemos é tentar resolver essa angústia fugindo para o futuro (ansiedade) ou nos lamentando pelo passado (nostalgia ou culpa). Mas Deus se apresenta a Moisés como “EU SOU”. Não “Eu fui”, nem “Eu serei”.

O teólogo Jean-Pierre de Caussade chamava isso de “o sacramento do momento presente”. A ideia é radical: a graça de Deus não está estocada no amanhã. O maná no deserto apodrecia se fosse guardado para o dia seguinte. Da mesma forma, a realidade espiritual, a beleza e a conexão com o Divino só podem ser acessadas no “agora”.

Toda vez que sua mente viaja para um cenário hipotético catastrófico no futuro, você está saindo do território onde a graça atua. Você está tentando viver um problema de amanhã com a força de hoje. O resultado é o esgotamento. O cristianismo profundo nos ensina que o presente é o ponto de intersecção entre o tempo e a eternidade. É a única fresta por onde a luz entra.

Aplicação Prática

Nossa cultura multitarefa (multitasking) é uma liturgia de adoração ao Chronos — tentamos fazer tudo ao mesmo tempo para “ganhar” tempo, mas acabamos perdendo a vida.

Para viver o Kairos esta semana, proponho o exercício da Mono-tarefa Sagrada:

  1. Escolha uma atividade trivial: Lavar a louça, caminhar até o mercado ou ouvir um amigo.

  2. Consagre o ato: Antes de começar, faça uma oração mental curta: “Senhor, eu te entrego esta tarefa. Que ela seja minha oração agora.”

  3. Imersão Total: Durante a atividade, não ouça áudios, não planeje o jantar, não repasse discussões mentais. Sinta a temperatura da água na louça, observe a textura do chão, ouça o timbre da voz do seu amigo.

  4. O Retorno: Quando sua mente fugir para o futuro (e ela vai fugir), gentilmente traga-a de volta, lembrando-se: “Deus está aqui, neste exato momento, não no que eu tenho que fazer daqui a uma hora.”

Pare de tratar o momento presente apenas como uma ponte para o próximo momento. A ponte é o lugar onde você está.

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